Eu resgato identidade. E tu?!

Novembro 07, 2018 - 333 vizualizações

“Iehhh carapau, ieh carapaueeeee... Iehhh boa espada, é boa espadeeee..” Dessas eu não me esqueci: Vinham vestidas de bessanganas, com aquela trancita caída para frente. Aquela kota da Corimba que vendeu peixe a minha mãe durante cerca de 15 anos, usava panos bonitos, e no meio deles, uma pastita também feita de pano que atravessava a cintura.

E do puto que saia lá de baixo do prédio as sextas-feiras para engraxar os pisos do velho? Aqueles que não precisam ver o trânsito parado para fazer as suas vendas...? Ahhh, esses também admiro!!!

As Marias, como todos nós tratamos carinhosamente, vivem da venda informal e viram-me crescer. Desde que me conheço como gente, que elas saem dos seus bairros, de manhã cedo e vão para o beco da Zimbo, ali na Mutamba onde cresci, e levam consigo tudo o que as Senhoritas da baixa precisam para apressar as suas panelas.

Da mesma forma, cada um dos meus amigos e primos, no seu bairro, sempre tiveram também o luxo de descer e logo encontrar, ou chamar pela janela aquela tia do pé de moleque, o miúdo do picolé, e/ou mesmo a tia da tão apetecível magoga que fica lá na esquina.

Sempre que ouvi dizer que África é terceiro mundo, nunca tive dúvidas de que essas pessoas erravam, porque sempre vi aqui o primeiro mundo: Tudo à mão de semear” e assim que vivemos e estamos acostumados. Essa, querendo ou não é nossa própria identidade. A zunga, as barracas montadas a porta de casa são características dos povos africanos, e eu gosto e admiro essa força.

Tem tias que são as últimas a dormir e as primeiras a acordar. Com kilapi ou sem ele, são elas que ajudam o pessoal do bairro.

Sim, as zungueiras, quitandeiras, aqueles putos que correm de sol a sol, são parte da nossa própria identidade, se calhar uma daquelas coisas que insistimos em esconder.. Mas estão aí bem patentes, e crescemos com isso!

Resgate. O que pressupõe?

Se queremos resgatar, melhoramos. E se melhoramos, criamos politicas para que evolua esse tipo de negócio... Não precisamos de estragar. Não podemos deitar abaixo aquilo que nos define como povo... que nos diferencia dos ocidentais.

E o negócio evolui.. Evolui mesmo: É só repararmos que de amiga, passamos a madrinhas (oh, proximidade), e de cú no ar, passou-se para arreou.

É fácil reeducar? Não, porque o povo está acostumado a anarquia e esta é sem sombra de dúvidas a forma mais fácil para todos.

Mas podemos, porque não é impossível. Somos chamados nessa hora a pensar naquelas mamãs que só sabem fazer isso da vida.

Lembro-me do lamento, dum quase pedido de socorro que as tias lá da ilha que em entrevista, reclamavam que as filhas hoje em dia, não querem seguir as suas pegadas, e herdar a quitanda. Ohhh frustração das peixeiras. E nós, pensamos que destruir a zunga, é resgatar...!

Paro para dar um muxoxo, também típico das tias a quem perguntávamos, perguntávamos, e nada comprávamos. Essas eram as que mais gostava.

Também solto uma gargalhada inesperada. Porque acabei de fazer uma descoberta: estresse afinal já existe há muito. Nós é que lhe dávamos outro nome: Rabugice.

E dentre muita raiva, lembrança e risos, tenho a dizer que educar e organizar, é melhor do que tirarmos da boca de quem já nada tem, para que passe a ser um miserável.

Resgatar não é acabar com...

Resgatar é ir buscar a melhor forma de...!

Boa noite, camaradas!!!

 

Comentários(0)

Log in to comment